quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Carta a você


     Hoje faz um mês que fui embora. Parece que foi ontem que me vi entrando pela porta e saindo pela mesma deixando tudo o que havíamos construído e o que ainda estava por vir para trás. Foi menos difícil sem a sua presença, pois esta só tornaria tudo ainda mais complicado. Dei uma última olhada e pensei que talvez pudesse dosar as coisas, mas você estranharia e eu não queria ter de dar explicações, vê-lo sofrer. Também não o mandaria embora. Jamais. Eu não precisava ir, mas tinha de fazer. Então eu simplesmente fui.
Os primeiros dias, as primeiras semanas foram normais. As lembranças não vinham e as horas passavam então eu não tinha do que me queixar. Eu vivia a minha vida e parecia já ter me acostumado com a novidade.
E mais dias vieram e se foram como os outros.
Entretanto, hoje pela manhã quando acordei, o telefone tocou e eu chamei pelo seu nome. Abri os olhos repentinamente e estranhei. Não o que havia feito, mas porque você não atendeu ao telefone e nem ao meu chamado. Levantei-me devagar e andei até a sala. Foi aí que comecei a sentir a sua ausência. Todas as lembranças vieram à tona e pude perceber que elas estavam ali o tempo todo, escondidas sob as ilusões que criei.
Olhando em volta, senti falta das fotos – seu material de trabalho – espalhadas na mesa de centro. A câmera filmadora e seus filmes ocupando todo o espaço do sofá. As cortinas estavam fechadas – até mesmo as do quarto. E o sol não estava lá para me ver como você dizia que ele fazia. Ao abri-las, ele deveria machucar meus olhos, mas nem isso ele fez questão de fazer. A mesa do café da manhã não estava posta com tudo o que eu gostava esperando por mim.
Olhei a porta do banheiro fechada – como exigia minha paranóia – pela estante vazada na parece do quarto e ainda tive esperanças de que você estivesse lá quando encostei o ouvido nela para ouvir o barulho do chuveiro... Mas não... Nada. Abri a porta e não vi nenhuma mensagem amorosa no vidro embaçado do espalho. A tampa da pasta de dentes estava na bisnaga e só havia uma escova de dente na pia. Ao abrir o box, inutilmente, você não me puxou para dentro junto de ti. Ao sair, deixei a porta entre aberta... te imitando.
Agora, novamente no quarto vazio não vi sua toalha molhada no pequeno divã ao lado da cama perto da janela, pois não havia um. Seu corpo moreno não estava na cama e só o meu lado estava desarrumado. Não havia roupas recém-passadas para serem guardadas e você não as estava bagunçando e me irritando.
Deitada, abracei meus joelhos e fiquei esperando sentir o arrepio vindo de seus dedos frios por minhas costas e seu abraço reconfortante. Mas a única sensação que tive foi a de desconforto por não ter encontrado isso e o frio que vinha daquela manhã. O pior de tudo não foram as lembranças vindo na velocidade da luz no meu jato de memória, mas não ter você puxando o cobertor pra me acordar, fazendo todo barulho possível. Não sentir o cheiro de hortelã de seu hálito em meu rosto ao falar e não ter o peso do seu corpo sobre o meu quando eu, preguiçosa, escondia a cabeça debaixo do travesseiro. O que realmente machucou foi não ter você lá para lembrá-las comigo. Os planos ilusórios que havia feito quando o deixei se afundaram em minhas lágrimas que tendiam somente a aumentar.
Virei-me na cama repetidas vezes e então parei encarando o teto. O que não parou, foram as recordações de você, de nós, em minha mente. Tudo fazia lembrar, até mesmo o silêncio. Esperei pelo barulho da porta batendo como quando, em nossas brigas inúteis, você saía dizendo que ia embora e trinta segundos depois voltava tentando me fazer sorrir e me beijava como se fosse a primeira vez. E não ouvi nada. Nem mesmo a pergunta idiota que sempre me fazia voltar para os seus braços: “Amor, não quero mais brigar, posso voltar agora?” e daí nós fazíamos as pazes.
    Você não chamou pelo meu nome. Não me chamou de amor e não sorriu pra mim. Eu senti a sua falta todo esse tempo e só reconheci isso agora. Peguei o cobertor e ao levantar não senti seu braço firme puxando-me de volta para a cama. Cobri-me por inteira e tentei afugentar a dor, a solidão. Querendo ouvir a sua voz, querendo ao menos lhe ver... Querendo estar presa em seus braços.


- Escafandro de Cristal

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