
Hoje faz um mês que fui embora. Parece que foi ontem que me vi entrando pela porta e saindo pela mesma deixando tudo o que havíamos construído e o que ainda estava por vir para trás. Foi menos difícil sem a sua presença, pois esta só tornaria tudo ainda mais complicado. Dei uma última olhada e pensei que talvez pudesse dosar as coisas, mas você estranharia e eu não queria ter de dar explicações, vê-lo sofrer. Também não o mandaria embora. Jamais. Eu não precisava ir, mas tinha de fazer. Então eu simplesmente fui.
Os primeiros dias, as primeiras semanas
foram normais. As lembranças não vinham e as horas passavam então eu não tinha
do que me queixar. Eu vivia a minha vida e parecia já ter me acostumado com a
novidade.
E mais dias vieram e se foram como os outros.
Entretanto, hoje pela manhã quando acordei,
o telefone tocou e eu chamei pelo seu nome. Abri os olhos repentinamente e
estranhei. Não o que havia feito, mas porque você não atendeu ao telefone e nem
ao meu chamado. Levantei-me devagar e andei até a sala. Foi aí que comecei a
sentir a sua ausência. Todas as lembranças vieram à tona e pude perceber que
elas estavam ali o tempo todo, escondidas sob as ilusões que criei.
Olhando em volta, senti falta das fotos –
seu material de trabalho – espalhadas na mesa de centro. A câmera filmadora e
seus filmes ocupando todo o espaço do sofá. As cortinas estavam fechadas – até
mesmo as do quarto. E o sol não estava lá para me ver como você dizia que ele
fazia. Ao abri-las, ele deveria machucar meus olhos, mas nem isso ele fez
questão de fazer. A mesa do café da manhã não estava posta com tudo o que eu
gostava esperando por mim.
Olhei a porta do banheiro fechada – como
exigia minha paranóia – pela estante vazada na parece do quarto e ainda tive
esperanças de que você estivesse lá quando encostei o ouvido nela para ouvir o
barulho do chuveiro... Mas não... Nada. Abri a porta e não vi nenhuma mensagem
amorosa no vidro embaçado do espalho. A tampa da pasta de dentes estava na
bisnaga e só havia uma escova de dente na pia. Ao abrir o box, inutilmente,
você não me puxou para dentro junto de ti. Ao sair, deixei a porta entre
aberta... te imitando.
Agora, novamente no quarto vazio não vi sua
toalha molhada no pequeno divã ao lado da cama perto da janela, pois não havia
um. Seu corpo moreno não estava na cama e só o meu lado estava desarrumado. Não
havia roupas recém-passadas para serem guardadas e você não as estava
bagunçando e me irritando.
Deitada, abracei meus joelhos e fiquei
esperando sentir o arrepio vindo de seus dedos frios por minhas costas e seu
abraço reconfortante. Mas a única sensação que tive foi a de desconforto por
não ter encontrado isso e o frio que vinha daquela manhã. O pior de tudo não
foram as lembranças vindo na velocidade da luz no meu jato de memória, mas não
ter você puxando o cobertor pra me acordar, fazendo todo barulho possível. Não
sentir o cheiro de hortelã de seu hálito em meu rosto ao falar e não ter o peso
do seu corpo sobre o meu quando eu, preguiçosa, escondia a cabeça debaixo do
travesseiro. O que realmente machucou foi não ter você lá para lembrá-las
comigo. Os planos ilusórios que havia feito quando o deixei se afundaram em
minhas lágrimas que tendiam somente a aumentar.
Virei-me na cama repetidas vezes e então
parei encarando o teto. O que não parou, foram as recordações de você, de nós,
em minha mente. Tudo fazia lembrar, até mesmo o silêncio. Esperei pelo barulho
da porta batendo como quando, em nossas brigas inúteis, você saía dizendo que
ia embora e trinta segundos depois voltava tentando me fazer sorrir e me
beijava como se fosse a primeira vez. E não ouvi nada. Nem mesmo a pergunta
idiota que sempre me fazia voltar para os seus braços: “Amor, não quero mais
brigar, posso voltar agora?” e daí nós fazíamos as pazes.
Você não chamou pelo meu nome. Não me chamou de
amor e não sorriu pra mim. Eu senti a sua falta todo esse tempo e só reconheci
isso agora. Peguei o cobertor e ao levantar não senti seu braço firme
puxando-me de volta para a cama. Cobri-me por inteira e tentei afugentar a dor,
a solidão. Querendo ouvir a sua voz, querendo ao menos lhe ver... Querendo
estar presa em seus braços.
- Escafandro de Cristal
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