Entregue à música desde o início do dia até o fim da madrugada, ela deita-se no chão, estica as pernas; colando-as na parede, enquanto enrola o fio do fone de ouvido grande que se mexe em suas pequenas e delicadas orelhas.
Adoro quando ela faz isso...
Gosto de olhá-la sem interrupções. Odeio quando ela lança-me um olhar repentino debaixo para cima; às vezes sentada na cama, às vezes enquanto fecha as cortinas.
Odeio, mas adoro. Adoro acordar com esse olhar desenhado em folha de papel colada no teto do meu quarto.
Ela odeia sol. Também não posso imaginá-la sobrevivendo por muito tempo exposta a ele com a pele de giz. Tão delicada, tão frágil… Lembra-me muito as bonecas de porcelana que sempre trazia da Holanda para minha irmã caçula. Meninos não brincam de boneca, mas adoraria brincar com ela.
Gostaria que ela preenchesse os espaços vazios entre os meus dedos e que os nossos pudessem formar laços que ficassem grudados para sempre. Ou preencher os espaços entre meus dedos com seus cabelos vermelhos e lisos, muito finos que mais parecem de mentira. Irradiam uma cor tão viva que mais parecem um outro ser a habitando. Estão sempre a dançar. Uma melodia calma, enquanto ela caminha em direção ao café todo dia de manhã. Uma melodia frenética quando ela dança que nem louca em cima da cama na frente do espelho usando apenas lingerie ou quando ela sai em dias nublados em que está se armando uma tempestade.
Summer…
Ela tem altura o suficiente para que eu a chame de minha pequena. Tem beleza o bastante para que o a chame de meu anjo. E sinceramente acho uma ofensa tentar escrever qualquer linha sobre ela pela singularidade de sua beleza singular. Ela tem particularidades que jamais vi em parte alguma do mundo.
Gosta de discos de vinil. Reparei a gigantesca coleção em sua estante à frente do papel de parede florido. Eu a vejo como uma menina quando ela se deita de bruços no chão, apoia-se nos cotovelos e desenha. As pernas brincando com o vento como se ele quisesse pegá-las.
Summer…
Minha Rainha Gelada. Nunca a vi derramar uma lágrima. Ela constrói um milhão de muros entre nós. Quando seus olhos azuis estão mais frios do que de costume e mais distantes, sinto que a distância entre nós aumenta ainda mais. A distância de apenas um apartamento de frente para o outro me faz ver um abismo entre eles, e, confesso, que tenho até medo de tentar atravessá-lo e chegar até ela do outro lado.
Vimo-nos do metrô pela primeira vez. Ela vestia um blusão preto, por cima de uma saia cheia de bottons, usava boina preta e a franja escondia seus olhos, enquanto ela apertava rapidamente as teclas do celular. O esmalte, ela tirava com os dentes. Mesmo de costas eu podia ver quando ela levava a mão à boca. A meia calça estava rasgada propositalmente e ela batia os pés em sapatos oxford; impaciente.
Summer…
Possivelmente hiperativa. Possivelmente durona. Possivelmente amarga. Possivelmente indecifrável. Possivelmente impossível.
Parece psicopata. Quando senta no parque, tem costume de olhar para as pessoas com olhares estranhos. Gosta e observar, mas não gosta de ser observada. E se alguém se aproxima, é possível que ela rosne só para que o fulano saia correndo.
Summer…
Adora fazer as unhas. A música que ouve, ouço do meu apartamento de tão alta. E, às vezes, posso escutá-la gritando mais alto do que os fones em suas lindas orelhas; enfeitadas com uma fileira de piercings cada uma. Mas que ao menos os brincos são discretos.
Summer tem feições delicadamente rudes. Só o seu tamanho, suas sardas, a cor de seu cabelo e o jeito como se mexe a fazem parecer com uma boneca de pano. Às vezes, consigo imaginá-la com asas. Asas quebradas de um anjo imperfeito que caiu do Céu.
Summer…
Quando penso que vai chorar… ela levanta da cama, procura um vinil, põe no rádio antigo e começa a dar socos no ar como se estivesse com baquetas na mão e o vento fosse sua bateria. Daí ela mexe as pernas como se fossem tentáculos para os lados. A cabeça gira e desfaz o coque que já estava caindo por causa do cabelo fino.
A maquiagem preta é sua companheira inseparável. Mas mal sabe ela que só reforça seus olhos e faz as pessoas quererem olhá-la mais e de perto. Para decifrar cada ponto de mistério de suas pequenas e sinuosas curvas. Não é magra, tem um corpo cheio, o qual ela tenta disfarçar com roupas escuras, porém sou um vizinho astuto e conheço cada traço de seu corpo. Cada medo de seu rosto. Sei que ela tem olhos tristes e sabe reconhecer o que realmente é quando se olha no espelho. Eu a vejo fechar mais a cara e baixar a cabeça. Costuma fazer isso quando tira a roupa. Despe-se e vira para lá e para cá no grande espelho do quarto.
Não se importa para quem supostamente possa estar olhando e reparando que a tal menina é mais uma mulher.
Summer…
Quando ela sobe o olhar novamente… ela se transforma. Vejo um sorriso malicioso formar-se no canto de sua boca. Então ela pega um batom vermelho. Passa nos lábios de maneira que fiquem ainda mais carnudos do que já são. Realça o lápis no olho, solta os cabelos que pendem até uns dedos abaixo da cintura e volta para frente do espelho.
Nua… ela morde o lábio inferior e segura os cabelos. Prende-os… Num rabo de cavalo tão irregular, que não sei dizer então o por que ela o faz. Semicerra os olhos como quem olha para um objeto de um desejo incontrolável e que pode até ser insaciável.
Perigosa… ela agora está subindo e descendo as mãos analisando cada parte com mais clareza e com mais vontade de ser notada. Ela fecha os olhos… a cintura dobra em movimentos dançantes. Ela quer seduzir. Ela quer seduzir-se.
A música é particular em algum lugar no fundo de sua cabeça, enquanto ela se mexe na cama. Enrola-se nos lençóis, desacelera e dorme.
Summer…
Que eu prefiro chamar de Winter…
Combina mais com seus olhos tristes. Vejo que carrega uma dor profunda. Vejo até que essas tristezas de um passado marcado podem estar em seus ombros, a julgar por sua postura irregular.
Sua voz é rouca, falha… Um calo na garganta, talvez. Talvez esteja sempre rouca de tanto gritar letras de músicas antigas de bandas que eu já nem lembro mais. Talvez seja por querer gritar ao mundo seus medos, incertezas e inseguranças… Um grito sufocado e atravessado na garganta, mas que ela o mantém assim… Faz parte do seu show - como diria aquela letra daquela música (modificada).
Summer…
Que eu prefiro chamar de Winter…
Que está deitada em minha cama. Dorme como um anjo. O sono é tão profundo que ela não acordaria ou se importaria se desabasse o mundo.
Os lençóis estão revirados. Depois de mais uma noite em que eu tentei fazer amor e acabar com a distância e a dor… Resgatar os passos e as batidas de um coração que já nem sei mais se bate ou se congelou de vez. Que um dia foi tão meu ou que tive a ilusão de que poderia ser.
Summer…
Que eu prefiro chamar de Winter…
Que não me aquece mais com seu abraço longo, embalado pela trilha sonora de nossos batimentos cardíacos. Que não me conforta mais com um sorriso tímido, sentada na janela pelas primeiras horas de um outro dia. Vestindo minha velha camisa do Guns ‘n Roses. Fumando um cigarro…
Summer…
Que eu prefiro chamar de Winter. Que eu não reconheço mais. Que eu amo mais. Que eu abraço mais. Que eu espero mais.
- Escafandro de Cristal

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